Para este projeto, baseado na teoria da deriva situacionista de Guy DeBord, foi-nos pedido que desenvolvêssemos um método para a nossa própria deambulação, composta de 14 paragens, cujo destino fosse a Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.
Como tal, segundo o tema proposto – Cidade Nua – o
nosso trajeto tem como referência o álbum Fado Maestro, de Carlos do
Carmo. Não é incomum encontrarmos a cidade de Lisboa romantizada pelas palavras
de artistas portugueses; sentimos que as palavras de alguém que ama a capital seria
um ponto de partida pertinente para despoletar alguma reflexão. A verdade é que
muitos de nós estudantes sentimos que Lisboa representa o início de um sonho,
uma caminhada que, a pouco e pouco, nos faz também integrar as suas ruas.
Assim, com o propósito de conectar o valor histórico
inerente a uma cidade a borbulhar de sentimentalismo com uma reflexão mais
pessoal e introspetiva, começamos o nosso caminho com a música Gaivota,
que nos remete para a leveza da paixão. Uma paixão que de tão genuína e apesar
de libertadora, é simultaneamente arrebatadora. Começamos num miradouro –
mostra-nos as ruas tão claramente que, na sua literalidade e simplicidade,
compõe uma experiência muito especial. É o olhar pela primeira vez; o deixar-se
consumir pela paisagem.
É a experiência que traz otimismo, motivação – acatar cada
sensação vai enchendo a pouco e pouco o recetáculo do que nos faz inteiros. No
entanto, há que equilibrar – o negativo faz também parte da nossa vivência, e
assim surge o valor associado ao caráter forte e à capacidade de seguir em
frente – apanhamos um transporte. Não importa o destino, há que continuar. “Por
morrer uma andorinha, sem amor, não acaba a primavera” (paragem II; Por
Morrer uma Andorinha).
Apesar do desapego implícito numa mentalidade positiva, a
saudade e a reminiscência acabam sempre por aparecer. Talvez por não ter um
rumo específico? Deambular sem objetivos pode fazer duvidar de um propósito
maior, fazer com que se encontre um conforto no que já aconteceu. O pilar de um
edifício, a sua robustez traz-nos mais paz. Quantas pessoas choraram também no
passado? Decerto muitas. Também várias se perderam. Mas nós ficamos com o
conhecimento que esses erros nos trouxeram (paragem III, Canoas do Tejo).
Como um refúgio, perdemo-nos algures. Talvez parar; falar um pouco do que foi - e já não é; um pouco do que será, e acompanhar com um copo ou outro. É a saudade, a nostalgia, é a certeza de que as coisas mudam e não voltam atrás – mas também a certeza de que uma boa memória será sempre uma boa memória (paragem IV; Bairro Alto).
E como aos poucos crescemos, vemos, sentimos e fazemos
coisas diferentes. Ficar até ao nascer do sol – ver a madrugada a florescer e
trazer a certeza de um novo dia. Por vezes a vida entra num estado febril de
interações, trabalho, euforia, partilha. É nessa confusão que conseguimos,
apesar de esgotados, retirar energia motivada pelas pessoas e experiências que
vamos acumulando. Uma ode aos nasceres do sol (paragem VI, Um Homem na
cidade).
Ainda assim, não devemos rejeitar o que nos trouxe até aqui.
A inocência e pureza de uma criança que, de forma curiosa e sem medos foi
percorrendo o seu caminho, mesmo que por vezes adverso ou criticado. A
liberdade de pensar como um puto, sem impor limites que surgem apenas com a
consciência da idade, é algo a preservar. Porque não seguir um pouco das
passadas de uma criança? Iremos em busca dela, parando apenas quando
encontrarmos essa liberdade, em forma de sonho (paragens VII e VIII; Os
Putos e O madrugar de um sonho).
O tempo passa, e algumas partes de nós acabam sendo
rejeitadas. É normal quando o relógio dita que é tempo de crescer. Vamos
construindo uma ponte entre passado e futuro – o presente. Como dois amantes
que se separam gradualmente, há duas margens ligadas, ainda que precariamente (paragem IX, Duas lágrimas de orvalho).
Mais uma vez o confronto; mas desta vez munido de alguma
desilusão. Por mais idealizado que seja o futuro, quando ele chega pode não
corresponder ao sonhado. Rios, prantos, frustração de ver um reflexo não tão
bonito como esperávamos. Mas a mudança não para só porque algo está distorcido.
Tudo flui nas águas do Tejo (paragem X, Não és tu).
Dificilmente se processa uma despersonalização tão intensa.
Há que procurar descano e aconchego na nossa desconexão. Apesar de solitário,
traz segurança. Devemos procurar um banco, e buscar tornar a solidão em
solitude (paragem XI, Fado Penélope).
No entanto, mesmo sentindo algum frio e reclusão, “A vida
é afinal no meu lugar; E só acaba quando eu quiser”. Seguimos sinais da
primavera, porque o outono e o inverno já se fazem distantes e há sempre espaço
para florescer (paragem XII, Sonata de Outono).
Nesta fase da deriva, começamos a tornar-nos mais literais.
Procurando o nosso destino, o nosso fado, após a mudança que se gerou tão
repentinamente, porque não visitar Alfama? Talvez clichê, talvez vazio. Mas
válido. Muita gente encontrou a sua casa no fado, muita gente fez do destino a
sua arte, e apesar de normalizado, não deixa de ser bonito e digno de respeito.
A História é implacável, mas a sua certeza pode tornar-se exemplo. Ciclos
repetem-se e na redundância, a vida torna-se certeira (paragem XIII, Nasceu
assim, Cresceu assim).
E assim terminamos a deambulação, já que no fundo, é a arte
que nos move. Foi o fado que motivou esta deriva, e é nas mãos dele que nos
entregamos. Será bom? Será trágico? Só o fado o sabe mesmo. Porque na arte tudo
nasce e tudo morre, também nós nascemos e morreremos. Se o destino é incerto,
deixai-o ser. A cidade está em nós, e por isso teremos sempre onde voltar.
(destino – Faculdade de Belas Artes da Universidade de
Lisboa, Teu Nome Lisboa)
Trabalho realizado por 14215 e 14209.






