quinta-feira, 2 de junho de 2022

Deriva da memória


Lisboa está em constante movimento. Ao longo dos anos, as vistas que nela se observam vão-se transformando, acompanhando a mudança dos tempos… Eu, que moro cá desde pequena, tenho a sorte de a conhecer o suficiente para perceber que partes dela se mexem, que partes se transformam e se tornam desconhecidas para mim. A minha deriva tomou uma forma circular sem que eu me desse conta. Os 14 pontos que fixei como estações são pontos que visitei ao longo da minha vida nesta cidade nos que criei alguma memória importante. O meu regresso a estes lugares será como uma visita a um velho amigo do qual não se ouviu falar há muitos anos, com quem é preciso conversar sobre o passado antes de poder conhecer o presente. Começo a deriva a fazer batota, de certa forma, porque já conheço o caminho que vou tomar. Para chegar à faculdade de belas artes de Lisboa preciso de andar durante 30 minutos por ruas que hoje em dia estão sempre cheias de turistas. Observo as suas roupas e ouço as suas palavras estrangeiras quando passam ao pé de mim. A minha mente viaja para lá da fronteira de Portugal e passeia por ruas imaginárias onde toda a gente fala como eles. O meu corpo continua o seu caminho pela sua conta. As pedras da calçada portuguesa são como a estrada amarela do Mago de Oz; um caminho seguro que me leva exatamente onde tenho que ir. A Igreja de São Roque, a estátua do carteiro, o Teatro da Trindade, o Chiado. Os mesmos edifícios que vejo todos os dias continuam lá. Ouço o burburinho habitual do Chiado e atiro uma moeda para a lata do homem que canta à frente d’A Brasileira. Finalmente chego à Faculdade. Sento-me num dos bancos e observo a porta. Os alunos vão e vêm sem reparar na minha presença. Lembro-me da primeira vez que pus cá os pés… Foi há uns anos atrás, numa visita de estudo. A escola tinha-me parecido tão grande… Agora sinto que conheço todos os cantos, e só passou um ano… Levanto-me. É hora de de seguir o meu caminho. Desço até o Rossio antes de começar a subir a Avenida da Liberdade. Sempre gostei de andar por cá. Quando as minhas amigas vinham a Lisboa, costumávamos fazer todo o caminho desde Marquês de Pombal até aos Restauradores, falando de tudo e mais alguma coisa. O nosso interesse estava posto nas árvores e na calçada apesar das grandes lojas que ocupam os dois lados da rua. Chego ao Teatro S. Carlos. A última vez que cá entrei foi na estreia da Ilha dos Cães, um filme em que o meu pai participou. Se fechar os olhos consigo vê-lo a subir a escadaria, todo contente, enquanto as pessoas lhe dão os parabéns. Sorrio e continuo a subir a avenida.


Atravesso a estrada e vejo-o. O Teatro Tivoli já foi palco de várias boas memórias (com certeza não só minhas. Se tivesse mais coragem, perguntava ao segurança da porta se tem alguma história interessante para contar), mas a mais crucial e mais vívida é a realização de Brundibár, uma ópera alemã que foi escrita pelo dramaturgo judeu Hans Krása em Auschwitz. Tinha uns 10 anos quando nos anunciaram que íamos fazer uma ópera no Conservatório. (Tive a oportunidade de me apresentar às audições, mas não consegui nenhum dos papéis!) Tinha uns 10 anos quando os nossos professores nos sentaram na sala de aula à frente de uma televisão e nos falaram pela primeira vez da Segunda Guerra Mundial. Lembro-me de olhar em redor e cochichar com uma colega que graças aos seus olhos azuis ela com certeza teria-se safado da morte iminente. Ouvimos com atenção e com raiva a história da peça, que na verdade era um grito de socorro mudo. Julgo que essa foi uma das únicas vezes que cheguei a sentir ódio. Um ódio que unificou a turma toda contra um inimigo já morto havia décadas. O resto da preparação da ópera foi um processo divertido do qual já mal me lembro. A memória que permeou realmente foi a História, da qual nunca mais me esquecerei. Continuo a minha deriva rua acima. A última estação deixou-me um bocado triste. Chego ao Marquês de Pombal e vou diretamente para o McDonald’s. A sua existência neste canto da rotunda é um lembrete da sociedade capitalista em que vivemos, mas agora mesmo também é o lugar onde vou comer. Sento-me num canto ao pé duma janela e lembro-me da noite em que jantei cá com a minha amiga Carolina. Falámos de parvoíces, como é costume, mas também aprofundamos um pouco nas expectativas que tínhamos para o futuro na altura… A seguir a isso fomos a um concerto no Tivoli, por onde já passei hoje. Fiz um percurso invertido. Levanto-me da mesa para continuar a minha viagem. Subo até as Amoreiras, o centro comercial. Estou um bocado cansada da subida, mas devo reconhecer que esta não é a pior encosta da cidade nem de longe. Decido não entrar; há muita gente, e já cá vim tantas vezes que conheço o interior de cor. Aos 14 anos celebrei cá uma das melhores festas de aniversário da minha vida. Tinha convidado umas 8 pessoas, mas só conseguiram vir 2. Vimos um filme qualquer que era popular na altura e jantamos antes de ir para a minha casa, onde falámos até altas horas da manhã sobre temas que nunca mais voltamos a tocar. Permito-me o luxo de deambular um bocadinho enquanto recordo as conversas daquela noite e luto por esconder um sorriso.


Quando dou por mim, estou no Jardim das Amoreiras. Há gente sentada nas mesas de metal a beber imperiais enquanto crianças brincam no parque. Dou voltas ao parque, escutando as vozes da gente que dele usufrui, e ao ver o Ginásio Clube Português lembro-me de uma demonstração de capoeira que houve neste mesmo sítio há bastantes anos atrás. O ritmo confiante dos desportistas, que davam pontapés altos e esquivavam os dos companheiros como se fosse fácil, tinha deixado o grupo de espectadores maravilhado. Muitos de nós foram experimentar uma aula no ginásio logo a seguir, mas a falta de sol da sala onde se dava e a nossa falta de experiência tornou a atividade muito menos interessante. Continuo a andar. Passo ao pé do Cemaudium, a escola de música onde aprendi a tocar piano (um talento que esqueci nos subsequentes anos), e do semáforo que não estava lá quando a minha amiga Rosa e eu passávamos a estrada a correr. Subo a rua D. João V até ver o centro comercial Amoreiras ao longe, e viro à esquerda. Fico à frente da Domino 's pizza, do outro lado da rua. Vim cá pela primeira vez com a minha mãe. Depois de comprar uma pizza para levar, fomos de volta a casa a conversar sobre o futuro e as nossas preocupações. Ajudou-me ver que a minha mãe também não tinha a certeza sobre tudo. A rua Ferreira Borges vai dar a uma espécie de núcleo que se divide em 5 ruas, a primeira incluída. Sigo pela única que vai para baixo, a rua Domingos Sequeira, sabendo que me vai levar até à minha próxima paragem. Passam dois elétricos de seguida. Eventualmente, chego à Estrela, mas em vez de ficar vou em direção oposta. As ruazinhas que dirigem à Tapada das Necessidades costumam estar quase vazias, exceptuando o eventual morador e os turistas perdidos. Os edifícios são baixos e o chão está sujo, mas o silêncio é bastante acolhedor. Ao pé do edifício cor-de-rosa com portas azuis que, segundo li, é um instituto para pessoas com necessidades especiais, e mesmo colado a uma casa em ruínas, está a entrada da Tapada das Necessidades. Para quem não estiver à sua procura, não parece mais que uma porta a um recinto particular. Uma vez dentro, não é estranho ser inspeccionado de longe pelos gatos e as galinhas que cá moram. Digo-lhes olá mentalmente antes de prosseguir. A Tapada das Necessidades não é enorme, mas é certamente grande. Os vários caminhos alternativos dão oportunidade de percorrer o mesmo lugar desde pontos de vista completamente diferentes de cada vez. Hoje não irei até a porta de baixo, decido quando vejo o primeiro pavão. Não se aproxima de mim, mas não faz mal. Não deve ser o mesmo que veio ter comigo a última vez que cá estive. Fazia um lindo dia de sol, e havia uma senhora a lançar-lhes comida ao pé da grade. Era uma vista muito bonita. Não consigo fazer amizade com o pássaro de hoje, pelo que dou meia volta e volto por onde vim.


As mesmas ruazinhas silenciosas, a mesma falta de pessoas. Reparo na embaixada da Finlândia, um edifício de azulejos brancos muito bonito. A bandeira tem um escudo que não reconheço para além das faixas azuis sobre o fundo branco.


Atravesso os semáforos (quase sou atropelada!) e chego ao Jardim da Estrela. Sento-me num dos bancos que fica ao pé do portão verde; desta forma posso realizar duas das estações ao mesmo tempo. Se virar a cabeça para a esquerda, verei a Basílica da Estrela. Nunca lá entrei, com muita pena minha, mas sempre tive noção da sua presença graças às badaladas das horas, que se ouvem desde a minha casa. É uma igreja realmente bela, sobretudo quando o céu está azul, como hoje. Volto o meu olhar para o interior do Jardim. Houve uma época da minha vida em que este sítio era como uma segunda casa para mim. A Edina, uma das minhas grandes amigas da infância, e eu passávamos horas a brincar cá dentro, procurando paus com os que lutar e cantando a altos berros no coreto. Quase consigo ouvir as nossas vozes quando saio do Jardim. 


Desço a Calçada da Estrela praticamente a correr, apreciando as cores dos edifícios da rua. Sempre os achei muito bonitos. Costumava vê-los pela janela do carro à noite e gostava de tentar adivinhar como eram as salas das janelas com luz. Quando chego à Assembleia da República, estou quase sem fôlego. Paro mesmo à frente dos degraus, de forma a ficar equidistante das duas estátuas dos leões. Quando ainda ia para a escola, passava por cá todos os dias sem olhar duas vezes. A única vez que me dediquei a observar os detalhes da Assembleia da República foi há três anos, durante uma manifestação pelo meio ambiente à qual cheguei atrasada. Por sorte, as minhas amigas da escola puderam gritar por mim. Lembro-me da multidão de jovens já a dispersar-se, do som de risadas e de cartazes apoiados contra os muros (“Não há planeta B!”). Das caras sorridentes das minhas colegas enquanto me diziam que não fazia mal, porque na próxima manifestação podia gritar eu por elas. 


Continuo o meu caminho com um sorriso. Subo a escadaria da Travessa da Arrochela de dois em dois, e viro à esquerda. Nesta ruazinha paralela, por trás de um portão verde de madeira, está o Atelier de São Bento. O portão está aberto, mas decido não entrar. Prefiro não chatear a Gina ou o Miguel enquanto estão a dar aulas. Continuo a subir a Rua da Quintana enquanto penso na sua disposição amável e sempre disposta a ajudar. A semana que passei lá num verão foi uma das mais produtivas da minha vida. Devia ter uns 14 anos quando a minha mãe me inscreveu para uns dos seus ateliês de verão. Nessa altura, eu não desenhava com mais do que grafite, mas eles ajudaram-me a expandir o meu vocabulário artístico, explicando-me cinco técnicas em apenas uma semana. As outras crianças que conheci estavam tão fascinadas como eu com os nossos resultados. A dia de hoje, essa experiência é uma das razões pelas quais me atrevo a experimentar novas técnicas.


Entretanto, cheguei à Rua Nova da Piedade, pela qual subo até à Praça das Flores. Aproveito para dar uma volta à fonte antes de seguir o meu caminho pela Rua da Palmeira. Não consigo formular muitos pensamentos durante a minha subida, mas reconheço que a Rosa mora aqui perto. Se fosse um bocado mais tarde, talvez a apanhasse a passear o cão. 


A Rua da Palmeira desemboca no Príncipe Real, pelo qual eu já passei hoje sem parar. Tomo a decisão de dar uma volta por entre as árvores antes de seguir o meu caminho até à última estação da minha deriva. O certo é que a maior parte das memórias que tenho deste parque são herdadas. A minha mãe mostrou-me fotos minhas sentadas neste chão quando ainda não caminhava e contou-me histórias sobre os bebés com os que brincava na altura. Mais fotos revelavam amiguinhos ligeiramente mais velhos, uns 4 ou 5 anos, ao redor das árvores (os ficus, como me ensinaram) e a frente da esplanada, sorridentes. 


Passo por baixo dos ramos do cedro e despeço-me do parque.


Na entrada da Rua do Século há uma pequena rua chamada Alto do Longo. A minha mãe e eu descobrimo-la ao voltar do Conservatório, a última estação, para casa. Hoje, faço esse mesmo caminho. As casas do Alto do Longo são pequeninas, e as suas portas também. Este espacinho parece uma praça de aldeia, um pequeno distrito escondido no meio da cidade. Desço as escadas, subo a rua e viro à direita, para uma rua com muitas casas e um arco. Não há cá ninguém. Quando voltava por aqui, de violoncelo às costas, também não costumava haver ninguém. Ao fundo da rua consigo ver o Conservatório Nacional, em obras. Algumas das janelas estão cobertas por tijolos. Odeio admitir que ver o edifício neste estado dá-me vontade de chorar. No seu interior (que já naquela altura estava a cair aos pedaços) passei 9 anos da minha vida a estudar música. Se tentar com muita força, o ruído das obras transforma-se em sons de clarinetes a fazer escalas com as janelas abertas, da voz de uma soprano a aquecer a voz, de um pianista acompanhador a improvisar… 


Se pudesse plasmar a sensação que causava estar lá dentro, nos corredores delineados por portas fechadas das que escapava música, fazê-lo-ia. Mas não posso fazer mais do que recordar.


Continuo o meu divagar, desta vez sem rumo. Já passei pelas 14 estações, estou repleta de memórias. O certo é que em cada canto que passo consigo ver cenas antigas a repetir-se. Cada uma das pedras da calçada de Lisboa podia ser uma estação nesta deriva... Mas não o será. O que toca agora é ir criar novas memórias que possam acompanhar as antigas. Desta forma conhecerei a cidade real e verdadeiramente.