quinta-feira, 2 de junho de 2022

Deriva com BANDOLIM de Adília Lopes (14253)




Deriva com

BANDOLIM

de Adília Lopes


















"Done with the Compass-

Done with the Chart!"

-Emily Dickinson, Wild Nights, Wild Nights!



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Partida da faculdade de belas artes

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Primeira paragem
página 101

"Nos anos 60, antes dos 10 anos, antes dos 7 talvez, comprei um vestido de veludo azul na Rampa, uma loja que havia no Chiado que tinha uma rampa. A provar o vestido, apanhei uma pneumonia."


Largo Rafael Bordalo Pinheiro, A Rampa
Vestir o corpo e a mente,
a alma fica doente de tanta nudez.
 
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Segunda Paragem
página 172

"Eros e Thanatos
Eros de xanatos”

Rua dos sapateiros, Peep Show
Animatógrafo do Rossio, em caso de dúvida, entre.
  
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Terceira Paragem
página 78

“God is good
for you
escreveu Dorothy Sayers
que escreveu romances policiais
e trabalhou em publicidade ”

Rua 1º de Dezembro, PSP
Será a policia agente de Deus, publicitária da sua vontade.
Intervenientes divinos.

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Quarta Paragem
página 154

“A inteligente gente é zombeteira. Sei isto desde que tenho consciência do mundo, desde os anos 60. Não vi outra coisa. Acho isto muito estúpido e de muito mau gosto. É uma moda. Uma má moda. Às vezes até são boas pessoas.”

Rua das Portas de Santo Antão, Coliseu dos Recreios
A Carolina há uns dias bem que disse que uma boa comédia não pode ser burra.

Mas a minha frase favorita dela continua a ser que ninguém merece morrer de olhos abertos. Ainda a vou convencer a mudar para fechados.

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Quinta Paragem
página 192

“O mundo é redondo.
O mundo dá muitas voltas.”

Avenida da liberdade
O sem-abrigo deu tantas voltas que deparou-se com liberdade.

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Sexta Paragem
página 53

“Os carros são todos umas latas, não prestam para nada. As pessoas dão importância a umas coisas que não valem um caracol.”

Praça da alegria
Fui à procura de carros
E em vez encontrei
Uma banda abandonada
no topo da colina
Namorados da cidade
de Lisboa sem o Carmo

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Sétima Paragem
página 77

“não se diz atelier diz-se oficina
não se diz dossier diz-se arquivador
não se diz placard diz-se expositor
não se diz envelope diz-se sobrescrito
não se diz soutien diz-se estrofião
estrofião só pode ser um palavrão.”

Rua Poeta Milton
Je suis un artiste contemporain tu ne me comprends pas.
Tu es un artiste contemporain tu ne te comprends pas.

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Oitava Paragem
página 37

“A casa das bonecas
foi demolida

As bonecas
foram parar
ao hospital das bonecas
com maus sonhos”

Rua Palmira, Hospital dos candeeiros
Li o hospital das bonecas e liguei à minha mãe para perguntar se, também ela, se lembrava de subir a rua do forno do tijolo em direção a sua casa quando ela ainda vivia nos anjos, e de ver um estabelecimento com esse nome. Disse que sim, que recordava comentar a lojinha comigo sempre que lá passávamos. Fomos procurar a localização da loja e nada encontrámos, presumimos que tivesse fechado com a pandemia.

Mais tarde iria lembrar-me que o hospital era de candeeiros e não de bonecas. Nunca antes havia encontrado tão boa alegoria para a nossa relação.

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Nona Paragem
página 129

“Escrevo escrevo escrevo escrevo almadamente. Almadamente é o contrário de desalmadamente. E é Almada Negreiros, Nome de guerra.

Praça duque de Saldanha, Metro de Saldanha
Segundo Almada Negreiros, devo me encontrar almadamente perdida.

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Décima Paragem
página 71

“«Mas só muito depois soube que quatro e morte se escrevem em chinês da mesma maneira.»
Agustina Bessa-Luís, O comum dos mortais, Guimarães Editores, Lisboa,1998, p.193"

Rua ponta delgada, Bookshop Bivar
"Two times two is four is no longer life, gentlemen, but the beginning of death."
-Fyodor Dostoevsky

"Freedom is the freedom to say that two plus two make four. If that is granted, all else follows."
-George Orwell, 1984

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Décima Primeira Paragem
página 47

“Com a República, o Largo de Santa Bárbara, em Arroios, em Lisboa, passou-se a chamar Largo 31 de Janeiro. Um gaurda-freio do elétrico, quando o elétrico passava por lá, dizia:« Largo 31 de janeiro de Santa Bárbara que Deus haja.» Contou-me a minha avó materna.”

Largo Santa bárbara, Anjos
Em arroios, nem Largo 31 de janeiro nem de Santa Bárbara que deus haja! Contou-me o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo.

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Décima Segunda Paragem
página 208

“A madalena de Proust tem ranhuras na base como uma vieira, uma concha de São Tiago. Havia uma pastelaria em Lisboa, na Av. da Repùblica, em frente da Versailles, a Colombo,que tinha madalenas assim.”

Avenida da república, Versailles
Madalena de Proust, de Versailles, de Colombo.
Uma madalena internacional.

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Décima Terceira Paragem
página 194

“Em Singularidades de uma rapariga loura, uma personagem diz quando desaparece uma coisa:
-A casa não tem buracos.
Cem anos depois de Eça ter escrito este conto, ainda ouvia a minha Tia Paulina, nas mesmas circunstâncias, dizer este dito da linguagem comum, do português fundamental.
A Tia Paulina nasceu em 1903, em Lisboa, no extinto convento de Chelas. Eça nasceu em 1845.”

Largo de Chelas, Igreja de São Félix
Em Singularidades de uma rapariga loura, uma personagem diz quando desaparece uma coisa:
-A casa não tem buracos.
Cem anos depois de Eça ter escrito este conto, ainda oiço a minha Madrasta Ana Paula, nas mesmas circunstâncias, dizer este dito da linguagem comum, do português fundamental.
A Ana Paula nasceu em 1972, em Vila do Conde, no Cimo da Vila. Eça nasceu em 1845.

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Décima Quarta Paragem
página 114

“Dis-moi, mon âme, pauvre âme refroidie, que penserais-tu d’habiter Lisbonne ? Il doit y faire chaud, et tu t’y ragaillardirais comme un lézard. Cette ville est au bord de l’eau ; on dit qu’elle est bâtie en marbre, et que le peuple y a une telle haine du végétal, qu’il arrache tous les arbres.
-Charles Baudelaire, "Any where out of the world", Le spleen de Paris”

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"Enfin, mon âme fait explosion, et sagement elle me crie : « N’importe où! n’importe où! pourvu que ce soit hors de ce monde! »"
-Charles Baudelaire, Any where out of the world
   
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"Amiga amante, amor distante.
Lisboa é perto, e não bastante.
Amor calado, amor avante,
que faz do tempo apenas um instante.
Amor dorido, amor magoado
e que me doí no fado.
Amor magoado, amor sentido,
mas jamais cansado.
Amor vivido é o amor amado.
Ai, Lisboa, como eu quero,
é por ti que eu desespero."

-Carlos do Carmo, Fado do Campo Grande



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