Números anjo
Sistema de deriva
Número de aluno:14320
O sistema escolhido para a minha deriva consistia no tema da simetria. Assim, pretendia guiar-me através de números simétricos tais como 11,22,33,777, etc. Comecei o meu caminho ao final da tarde, sendo que o percurso começaria no marquês de Pombal e acabaria na faculdade de belas artes. Inicialmente, dirigi-me para a rotunda onde começaria o sistema deste percurso. Olhei para o telemóvel onde ironicamente estavam marcadas as horas de 18:22. Primeiramente, atravesso a rua de modo a encontrar-me numa das pontas da rotunda do marquês de pombal, olho em meu redor na esperança de encontrar algo que indique o primeiro passo do meu caminho. Ao dar o primeiro passo no sentido de descer a rua em direção ao Chiado, avisto o número 11 perdido nas informações de uma loja para se arrendar. O placar da loja tinha um padrão de ilusões que por momentos relembram-me de um local com o qual tinha sonhado no dia anterior. Decido assim continuar o meu caminho. Dou mais três passos e avisto o número 55 num carro azul turquesa brilhante. O azul brilha ao ponto de ver o meu reflexo no metal do veículo e por momentos paro para observar.As passadeiras constantes vão cortando a minha linha de pensamento assim como os desvios que faço de algumas pessoas que vão contra mim. Passo a passadeira mais uma vez e avisto o número 22 à frente de uma porta verde. O formato da porta faz-me viajar até à casa de uma amiga de infância com uma porta semelhante. Despeço-me daquele local e continuo a andar. À medida que ando passo por várias senhoras sem abrigo, uma delas com um lenço na cabeça do mesmo verde profundo que a porta. De repente reparo que vários objetos que me rodeiam são verdes e não consigo desconectar-me dessa visão. No meio deste pensamento avisto o número 99 num carro cinzento do outro lado da rua. Sigo-lhe o rasto e atravesso a rua para o meio da avenida. Deste lado da rua há mais vida. As pessoas vão passando à minha volta e ouve-se música no fundo provavelmente vinda de um artista de rua. Sento me num banco, verde tal como a porta, tal como o lenço a escrever por uns momentos. O vento passa por mim e observo o reflexo das sombras das árvores no chão. Observo enquanto as sombras dos pés dos turistas vão aos poucos pisando os desenhos da calçada. Um senhor com dois cães passa perto de mim enquanto os cães me observam. De repente os dois cães lembram-me do número 22 e sinto me neste momento a minha mente apenas vê números em tudo o que me rodeia. Levanto me e continuo a minha rota. A rua está cortada com obras mais ao fundo por isso sou obrigada a passar a rua outra vez, voltando a onde me encontrava inicialmente. Procuro por mais uma pista. Vejo o número 44 em frente a um café “The coffee house” um café com um ar caro e pessoas caras.Observo um homem com um fato que toma um café na explanada. A ideia de tanta gente desconhecida sentada no mesmo local por momentos começa a parecer estranha ou quase ridícula. Desfaço-me deste pensamento intrusivo e continuo a descer a rua. Ao mesmo tempo que caminho sou interrompida pelas passadeiras continuas e pelos olhares das pessoas. Paro porque vejo o número 99 na matrícula de uma mota estacionada no canto da rua. Por momentos vem ao de cima o meu desejo de ter uma mota. Dois homens passam por mim a alta velocidade em motas e eu observo distraída. Dou mais uns passos, encontro-me agora perto do metro dos restauradores onde vejo um autocarro que passa por mim com o número 55. Penso como seria segui-lo a correr apesar de saber que era apenas mais um pensamento intrusivo. Os buzinares dos carros à minha volta tocam como uma melodia entrelaçados com as vozes das pessoas na rua. Há uma certa beleza na confusão da cidade de Lisboa. O meu olhar é desviado para o número 11 num sinal de aviso de estacionamento, sigo em frente como indica. Sinto o calor nas costas à medida que ando apesar de já ser calor de final de tarde. Sento-me por momentos num banco na Praça Dom Pedro IV. Observo a água a cair e a delicadeza das estátuas que contrasta com as obras que estão a acontecer do fundo da paisagem. Quase desfocado consigo ler o número 33 numa porta verde bem ao longe. E então sigo caminho até la. Assim que me levanto o vento faz com que leve com pequenas gotas de água da fonte. Sigo em frente sabendo que já me estou a aproximar do destino. A rua por onde passo agora é mais barulhenta e tento me desvia dos turistas à medida que vou escrevendo e andando. Observo o número 66 nos preços numa banca de turismo. Observo rapidamente as imagens coloridas nas publicidades. Estou agora cada vez mais perto da paragem final. Subo a rua em direção ao chiado. Vejo o número 11€ numa banca de colares.Relembro-me das más memórias que tenho daquela precisa esquina em que paro mas continuo a subir a rua. Vejo o número 77 numa loja de lembranças. Relembra-me de uma loja exatamente assim onde um dia comprar o anel que estou a usar hoje. Continuo a subir a rua ao som da música portuguesa que toca mas não consigo perceber de onde vem. À medida que subo as músicas vão mudando. No cimo da rua um homem na rua toca uma música feliz num saxofone enquanto algumas pessoas dançam na rua ou olham quando passam. Avisto o número 111 na janela de uma loja na rua com sentido contrário para onde ia. De qualquer forma aproximo-me para observar. Vejo como a loja está quase deserta e a funcionária espera entediada atrás da caixa. Ando em direção à rua da faculdade porém paro porque vejo uma porta verde com o número 11 com uma rapariga sentada na entrada. Tinha cabelos longos loiros e estava a usar u vestido rosa choque. Parecia distante enquanto fumava sentada e sinto o cheiro do cigarro quando passo por ela. Estou agora na rua da universidade. Ando sempre em frente enquanto algumas pessoas passam por mim com olhares de quem julga , alguns curiosos com o que escrevo no meu caderno. Avisto ao fundo a cor amarelada do edifício da universidade e vejo alguns turistas sentados nos bancos verdes cá fora. Sento me também enquanto escrevo e secretamente ouço as conversas em francês de duas raparigas ao meu lado. Viajo por momentos até à Bélgica. Vejo as flores amarelas a cair da árvore que nos abriga do sol e sinto o vento quente nas pernas. Flores amarelas tem uma simbologia especial para mim o que me trás uma sensação de nostalgia feliz. Sento me no banco onde ao longe avisto a bandeira de Portugal com a paisagem da cidade. A visão parece estranhamente perfeita para encerrar o sistema. Cai-me uma flor amarela no colo e decido guardá-la.



