sexta-feira, 3 de junho de 2022

Prazer


Prazer


O meu sistema de deriva consistia no conforto e naquilo que me faz sentir bem e seguir em direção a esse mesmo prazer e foi exatamente isso que realizei.

Apesar do meu percurso ter acabado por se basear um pouco pelos mesmos sítios e ter andado um pouco à roda sem acabar por fazer um percurso linear até à FBAUL, sinto que não o podia ter percorrido de melhor forma e mostrado melhor versão de Lisboa.

 

 

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Esta primeira paragem terminou na porta 60. Esta paragem cativou-me não só por obedecer à minha primeira regra mas também pelo seu aspeto velho e verdadeiro. O jornal claramente antigo entreposto no correio da porta e o vazio que esta transpassa chamaram a minha atenção ao mostrar o lado real antigo e sozinho da cidade.

  




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Aqui, encontrei-me perdida e a revirar ruas de um lado para o outro enquanto seguia pessoas pelos seus pés e quando cumpri finalmente a regra cheguei e encontrei esta paragem. Mais uma vez dou por mim a encontrar e observar o velho. No entanto, o que me despertou interesse foi o facto de estar a ser mais observada (pela cidade, pela janela aberta, pelo pombo) do que eu a observar e no fim o meu observador parte sem mim.



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Nesta paragem encontrei-me com uma pequena varanda mas que nela senti que arrecadava toda a tristeza e solidão da cidade. O contraste entre as plantas mortas e a luz do Sol que lhes batia quando olhei para ela fez com que todo aquele conjunto se tornasse em algo extremamente belo.


 

 


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Esta paragem é a da inquietação. Tal como a cidade de Lisboa como a conhecemos, esta paragem tinha em si uma mascara. No entanto, ao contrário do que acontece nessa cidade, na minha cidade nua e na minha Lisboa e nesta paragem em especifico, a mascara é assumida e não escondida, mostrando o autêntico ao invés de o repreender.

 

 
 
 
 
 
 

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A musica que escolhi para percorrer esta paragem chama-se Losing Something dos Babe Rainbow. Ao acabar esta música senti que ir para um café de imediato era algo forçado e deixei-me vaguear durante uns momentos. E é aí que chego a esta paragem, o senhor Estefano. Este senhor viajava e conhecia a cidade pela sua própria companhia e pediu-me para o fotografar ao pé das luzes penduradas já que não tinha como fazê-lo sozinho e eu aceitei e então ofereci-lhe um café fazendo desta paragem uma partilha entre desconhecidos. Uma frase da música que escolhi até percorrer esta paragem é ‘Losing Something is finding Something else’ e sinto que se aplica aqui.

 

 
 
 

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Esta paragem foca-se não na casa encontrada, mas na sua parede. Esta parede estava repleta de chamemos-lhes ‘aditivos’ fosse do que fosse, e a sua dimensão não se ficou apenas pela parede dessa casa mas também do resto dessa moradia, e todo esse moral no geral que para mim representam a mixórdia e a confusão da cidade são esta paragem.

 
 
 
 

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Inicialmente esta paragem era focada nesta impressão na parede como a representação da auto-reflexão, no entanto, ao tirar esta foto, passou um homem pela frente desta mesma impressão e ficou ali. Parado. Perguntei-lhe se queria que lhe tirasse uma fotografia, achava que era esse o porquê de ele estar a olhar para mim com uma câmara enquanto fotografava esta impressão. E a esta questão ele responde-me ‘não, eu não sou turista sabe? Mas e você? Faz o quê?’. Depois de obter esta resposta fiquei parada e calada porque realmente não sei responder a essa questão, o que faço eu? Nesse espaço de tempo o homem abandonou o lugar e eu apercebi-me que uma relação de paralelismo, sobre auto-reflexão, se havia estabelecido entre mim e a impressão à minha frente . (Não partilharei fotografia deste homem já que ele pediu que não o fizesse).

 
 
 
 
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Aqui está também o primeiro documento que fiz que inclui a minha intenção de derivas e regras para a percorrer.





Como breve resumo e conclusão deste trabalho e desta deriva por Lisboa reinventada por mim como uma naked city, quero reforçar que, em primeiro, tive muito mais gozo em percorrer na prática esta deriva do que alguma vez imaginei. Em segundo quero confessar que me perdi, perdi-me a percorrer este percurso pois no fim já dava por mim a não seguir tanto as minhas regras teóricas mas a abrir-me ao desafio total de andar à deriva, mesmo que sempre com o meu tema do conforto já que segui sempre caminhos que de certa forma me traziam sensações de bem-estar. O meu percurso começou no Miradouro da Graça, continuou pela Graça, depois pelo Martim Moniz e por fim na FBAUL como era proposto, mas quero realçar que este percurso pode ser feito de forma a que passe em sítios completamente diferentes dos que o meu passou.


Nunca fui grande fã da cidade de Lisboa graças à impessoalidade que nela sinto que existe mas posso dizer que, ao realizar este percurso, pela primeira vez neste local senti proximidade entre mim e as pessoas que me rodeavam e gostei da presença de desconhecidos não impessoais. Para mim, sentir pela primeira vez isto neste local, é a minha auto prova de que consegui de facto reinventar esta cidade e torna-la minha.

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