quinta-feira, 2 de junho de 2022

Deriva expressão artística, 14242

 

Deriva expressão artística

14242


Lisboa é uma cidade que se encontra em constante movimento, evolução, é uma cidade que tenta compreender a todos assim como acolher, mas por muitas vezes acaba por não ser compreendida. É uma tentativa de quebrar com a lógica automatizada do caminhar, procura se dedicar mais à própria reflexão do que a seus objetivos.


Deriva como contraponto a um mundo que sufoca os seus cidadãos


Promover novas percepções da cidade, novos caminhos e rotas, indica um estado de liberdade afetiva e de reconhecimento urbano, um jogo de relação entre indivíduo e espaço, na busca de uma ludicidade há muito esquecida. A busca daquilo que sai do controle mesmo de forma temporariamente, ressignificação do espaço-tempo.



A deriva começou logo no comboio em direção a Lisboa, imediatamente no comboio procurei observar atentamente as pessoas que saiam e entravam no comboio, como agiam entre outros. Era cerca de 9h40 da manhã e o tempo estava impressionantemente agradável naquele dia, sendo extremamente frio ou calor, um clima ameno a todos. Procurei observar os reflexos, ao contrário do que faço no cotidiano.



Assim que cheguei à estação da Santa Apolónia, procurei andar o mais lentamente possível de modo a conseguir absorver cada detalhe possível. Caminho lentamente pela gare em direção oposta a aquela que realizo todos os dias, vou em direção a entrada principal, resolvi realizar essa parte do percurso a pé.


Caminho lentamente procurando absorver cada detalhe, o melhor possível uma vez que não o vejo no metropolitano no cotidiano. Observo as sombras, assim como o chão. E inconscientemente acabo por encontrar outra estação.


Por um longo período de tempo, há apenas eu no passeio em minha companhia a o frenético ir e vir dos carros na estrada, que transmite a sensação de que a qualquer momento irei presenciar algum tipo de acidente. Observe os turistas a entrarem em um daqueles autocarros turísticos onde os guias falam a partir de um megafone, não consigo evitar a divagação sobre o pensamento que possuem acerca da cidade… será que estão tendo a mesma sensação que tive, quando pisei aqui pela primeira vez?


Sem me aperceber chegou rapidamente ao Terreiro do Paço, enquanto interiorizava aquele percurso que anteriormente era completamente estranho para mim. Resolvo sentar nas escadas aos pés das estátuas de D. José I, e admiro como independente dos ângulos que a avistamos a estátua sempre opõe algum tipo de autoridade sobre quem a vê, Lisboa exerce o mesmo papel, cidade acolhedora que ao mesmo tempo impõe certa autoridade sobre seus “passageiros”.

Espreito as pessoas quietamente, e acabo por me fundir com a paisagem da cidade, tornando-se invisível para a maioria. Nesta observação vejo a diferença entre os turistas e os lisboetas, e como o ritmo frenético em ambos os casos são praticamente opostos porém complementares enquanto o lisboeta caminha apressadamente com um ar de que se encontra atrasado na sua face, o turista caminha freneticamente em busca de absorver tudo que pode no menor tempo possível. Curioso como uma mudança de perspectiva pode mudar em qual desses caminhos frenéticos nos encaixamos.


Levanto-me, e continuo o meu percurso. Sigo um grande fluxo de pessoas que segue em direção a baixa-chiado, e apercebo-me que as flores da pequena “floricultura” que vejo todas as semanas as flores pareciam estar muito mais vivas do que habitualmente, sorrio e realizo um registro fotográfico.

Continuou a seguir a estrada e acabou dirigindo a estação do metro baixa-chiado, resolvo continuar o percurso e seguir o fluxo até a estação em que a maioria resolve-se descer. Fui em direção a linha azul sentido reboleira, entrei na carruagem e sentei-me calmamente à espera do momento em que devesse sair. A estação em que eu desço é Restauradores. Sigo em direção a saída com menos pessoas, e continuo o meu percurso calmamente, quando escuto algo que parece uma melodia sigo o som com intuito de encontrar a pessoa por trás, acabo por entrar em uma rua estreita e pequena, a melodia por um momento suspender, e regressa novamente, apresso o passo com receio que a melodia acaba antes que tenha oportunidade de ver. Acabei por não encontrar o lugar exato onde a melodia se encontrava, mas parecia surgir de uma janela no terceiro andar de um prédio já antigo. 


Após isso, resolvi regressar e continuar a deambulação em busca de que a cidade me surpreende-se de outras formas. Deparei-me com uma cena que me chamou a atenção, um pequeno jardim no meio de dois prédios, lugar esse que permite uma maior entrada de luz, além de transmitir um ar panorâmico e melancólico através da sua simplicidade.


A deriva teve sua continuidade ainda por esta região, o percurso teve a intervenção novamente da direção das massas, mantendo uma certa distância de modo a observar o meu entorno sem os perder de vista. Durante o percurso foi necessário parar para atingir os atacadores das minhas sapatilhas, e vejo um mosaico no chão de uma simplicidade porém com uma história enorme, história que reflete o trabalho árduo e dedicação de vários trabalhadores.


Resolvo seguir a direção que o mosaico indica, e acabo por ir em direção ao parque que fica apenas alguns metros de distância da entrada para o metro dos restauradores, e  vejo o mural de azulejos pintados em uma das entradas do metrô, fiquei a olhar tentando perceber o que ali estava representado quando apercebi-me de que era um pássaro a voar, porém não conseguia tirar da cabeça que o desenho das asas pareciam rostos mais especificamen máscaras de carnaval.


Enquanto caminhava decidi atravessar a rua quando me deparo com um elétrico curiosamente grafitado onde sua cor tradicional amarela contrasta com a tinta aplicada recentemente devido a intensidade da cor, uma fusão completa entre o histórico e o contemporâneo. A verdadeira representação da crescente onda de necessidade de enquadramento das artes visuais na cidade.


Resolvi realizar o mesmo percurso que o elétrico esteja pré-disposto a cumprir e fui avaliando, como as paredes destas ruas estavam muito mais degradadas e cheias de grafites contrariamente a as ruas que possuem um maior movimento turístico. Acabei por chegar nas escadas vermelhas que ficam atrás da estação do Rossio, tomei a decisão de subir as escadas e continuar a minha deriva seguindo esse percurso. Não fui divagando como havia acontecido nos percursos anteriores, fui apenas observando quietamente tudo o que passava em meu entorno, calmamente sem nenhum tipo de pressão ou imposição permitindo que a cidade me guiasse também.

Continue a subir e acabei por me deparar com uma estátua de um carteiro a segurar uma carta, surpreendentemente não era muito disputada pelos turistas, pelo qual decidi sentar-me ao banco ao lado e observar cuidadosamente a estátua, imaginando o que poderia estar escrito naquela carta, e para que deveria ser?, observei durante mais um tempo e resolvi continuar o meu percurso.


Após a parada, resolvo continuar a seguir em frente e quando dou por mim me encontro no Jardim de São Pedro de Alcântara. Tomo a decisão de caminhar e sentar-me nos bancos para observar melhor a vista e as pessoas que por ali passavam, e me deparei com um casal de estrangeiros que pintavam calmamente a vista que eu estava a admirar, transmitiam tal serenidade que não pude deixar de reparar. Pareciam que estavam em profunda conexão com a Cidade, dentro da sua própria “bolha”.



Decido continuar, e sigo o fluxo de pessoas que seguem pela a rua de São Pedro de Alcântara, vou observando as ruas, as pessoas e a arquitetura encontro um prédio curioso já bem velho e desgastado porém seus detalhes continuam intactos como se fossem impenetráveis. Ao admirar o desvio do percurso que estava a seguir e decido ir de encontro ao prédio, atravesso a rua e quando chego perto atentamente observo os detalhes que havia visto ao longe. 

Passou por debaixo de uma árvore que ali estava e registrou o momento.


Continuo o meu devaneio desta vez sem rumo, uma vez que não há grande fluxo de pessoas ou melodia para me guiar. Com isso, resolvo seguir em frente deixando que o meio urbano me mostre o caminho. Durante o caminho vou a refletir sobre todas as estações pelas quais já passei, e como todas de certa forma mesmo sendo opostas se completam de alguma forma. Apercebo-me e percebo que já estou em frente à embaixada brasileira, lugar que já vi muitas vezes e esboço um sorriso melancólico de saudades de casa. 

Escuto uma melodia e percebo que vem da estátua, voltou atrás e decidi ir ver, é uma bateria e um trompete, paro e escuto atentamente antes de continuar o meu percurso.



Regresso ao caminho que estava a percorrer antes. Continuo a andar até que vejo uma escadaria, e me apercebi de que nunca a tinha visto, até este momento.


Desço as escadas, e tiro uma fotografia.



Continuo o percurso e me deparo com outra escadaria, enquanto estou a descer, encontro um músico a tocar nas escadas, paro a meio das escadas para o ouvir, lhe dou algumas moedas e decido continuar o meu percurso.







Chego a uma praça da rua serpa pinto, e vejo um mural com três senhoras, que ilustram a arte do filum granum, o fio de ouro que são pequenos fios de ouro da espessura de um fio de cabelo que são entrelaçados pelas mãos de só quem sabe esse arte. O mural representa essa arte, através de desenhos simples mas de uma essência complexa.





Sigo a rua serpa pinto, sem direção exata apenas seguindo o caminho do passeio, sigo em frente e acabo passo em frente ao hospital da terceira ordem, e sei que não me encontro tão longe da faculdade, cada vez mais o ruído das obras imparáveis da cidade de Lisboa aumentam e tento imaginar como seria lisboa se não estivesse sempre em construção, não pude, não há como imaginar uma Lisboa onde não haja o barulho constante das obras, ou as gruas que disputam com os arranha céus por um espaço no céu.




Passa a correr um rapaz ao meu lado, e sai rapidamente do estado de devaneio que me encontrava, olhei e vi que rapidamente ele colocou um adesivo em um dos postes que se encontravam mais a frente, e continuo a correr sem olhar uma única vez para trás, perguntei-me porque motivos ele corria tanto, será que corria  atrás do tempo assim como todos nós?


Cheguei ao pé do poste e não conseguia recordar qual adeviso ele teria colocado, foi perdido na imensidão dos restantes e sabia que havia naquele momento encontrado a minha última estação.


Retomo ao meu devaneio, subo a ladeira que se encontra a minha frente, e escuto o sinal da escola e apercebo-me de que já é 12h e que já me encontro no largo das belas artes, sento-me debaixo da árvore e reflito todas as estações que passei e as sensações que tive em cada uma delas.

A escuta da meticulosa sinfonia metropolitana, e as reflexões que surgiram sobre as relações existentes neste espaço, e seus fluxos inconstantes. 


Perder-se para se encontrar.


Lisboa, que é apenas resultado de suas características exteriores, é o produto de seu observador.


A consciência que somos nós que preenchemos o vazio da cidade, e somos nós que a fazemos existir.

Criação de um paradoxo entre a cidade que as pessoas que observamos estão a “viver”, e a cidade que nos é mostrada a partir dos devaneios conscientes.